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18 | fev | 2026

Por: Henrique Ávila

Coordenador de Impacto e Projetos de Saúde

Durante os seis dias de folia, Salvador reafirma seu título de “maior festejo popular de rua do planeta”. De acordo com o Guinness Book, o Carnaval soteropolitano é a festa mais populosa do mundo, atingindo em dias de pico a marca impressionante de 1,2 milhão de foliões por circuito. Em meio a essa magnitude, o trabalho conjunto da Motirô BA, através do projeto Rolê da Prevenção, e da Secretaria Municipal de Saúde (SMS) de Salvador, consolidou resultados expressivos para a saúde coletiva, especialmente para as populações que historicamente enfrentam maiores barreiras no acesso aos serviços.

Diagnóstico e Prevenção sob o Calor de 30°C

A estratégia Fique Sabendo, veterana no diagnóstico precoce de HIV/Aids e outras Infecções Sexualmente Transmissíveis (ISTs), ganhou este ano o reforço de uma equipe multidisciplinar. Educadores de pares de diversos movimentos sociais, estudantes de Saúde Coletiva (unindo a academia ao campo) e servidores municipais da Subcoordenação de Cuidados Transversais formaram um time resiliente. Mesmo sob temperaturas superiores a 30°C e complexos desafios operacionais, a ação garantiu acesso equitativo à testagem e ao aconselhamento.

Os números impressionam: mais de 1,5 milhão de insumos de prevenção, entre preservativos internos, externos e gel lubrificante, foram distribuídos nos circuitos. Para muitos trabalhadores da folia — cordeiros, ambulantes e prestadores de serviço em camarotes —, o Carnaval representa a única oportunidade anual de realizar um teste e receber orientações de saúde, evidenciando a importância de “ir onde o povo está”.

O Cenário Epidemiológico e a Urgência da Equidade

A necessidade dessas ações é corroborada pelos dados. Segundo o último Boletim Epidemiológico de HIV/Aids do Ministério da Saúde, o Brasil registra anualmente cerca de 45 mil novos casos de HIV. A prevalência ainda é desproporcional entre as populações-chave: enquanto a prevalência na população geral é de cerca de 0,4%, entre homens que fazem sexo com homens (HSH) esse número salta para cerca de 18%, e entre mulheres trans pode chegar a 30%. Além disso, a saúde LGBTQIAPN+ enfrenta o desafio do estigma, que muitas vezes afasta o indivíduo da unidade básica de saúde.

É neste cenário que o conceito de Equidade se torna a peça central. Quando a sociedade civil (que detém o saber do território), a academia (que fornece a base científica e técnica) e a gestão em saúde (que operacionaliza as políticas públicas) trabalham em sintonia, o Sistema Único de Saúde (SUS) é quem sai ganhando. Essa união tripartite permite que o cuidado não seja apenas ofertado, mas que chegue de forma humanizada e eficaz a quem mais precisa.

PrEP: Informação para Romper Barreiras

A Profilaxia Pré-Exposição (PrEP) foi um dos grandes destaques desta edição. Através do lúdico jogo “Bora Combinar”, as equipes da Motirô BA e SMS evidenciaram a necessidade urgente de democratizar a informação. Atualmente, os dados nacionais de monitoramento da PrEP mostram um recorte de desigualdade: a maioria dos usuários é composta por pessoas de raça/cor branca, com alta escolaridade e renda média-alta.

O desafio para 2026 e para as ações contínuas ao longo do ano é romper os muros das regiões centrais e levar a PrEP para as comunidades e bairros periféricos. A saúde equitativa exige que as ferramentas de prevenção combinada não sejam privilégios, mas direitos acessíveis a todos, independentemente do CEP ou da conta bancária.

Compromisso com o Futuro

A experiência deste Carnaval demonstra que o Rolê da Prevenção não é uma ação isolada, mas uma tecnologia social de cuidado integral que veio para ficar. A Motirô BA reafirma seu compromisso de seguir advogando pelo acesso e pela saúde das populações em situação de vulnerabilidade.

Promover saúde é, acima de tudo, garantir que ninguém seja deixado para trás. Com o apoio da SMS Salvador e a força dos movimentos sociais, seguiremos transformando a folia em um espaço de celebração, mas também de cidadania e cuidado.

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