Iniciativa do Projeto Akanni, da Motirô BA, em parceria com o MNPR-BA e estudantes da UFBA, promoveu educação em saúde, redução de danos e escuta ativa no centro de Salvador.
No último dia 09 de abril, a região do Aquidabã e Santo Antônio Além do Carmo, em Salvador, recebeu o circuito “Saúde em Movimento”. A ação de itinerância, promovida pela Motirô BA através do Projeto Akanni, teve como foco principal levar estratégias de educação em saúde, acolhimento e informação para a População em Situação de Rua (PSR) e pessoas em extrema vulnerabilidade social da área.
Construída em parceria com o Movimento Nacional da População de Rua (MNPR-BA), Coletivo Nós nas ruas composto por estudantes da Universidade Federal da Bahia (UFBA) e ainda o apoio da Qiagen, a dinâmica foi desenhada para ir muito além da simples oferta de serviços. O objetivo central foi cuidar, acolher e informar, respeitando a autonomia e a realidade das ruas.
A urgência do cuidado: dados que exigem ação
A realização de ações contínuas nos territórios é uma resposta direta a uma realidade alarmante. Segundo dados recentes do Observatório Nacional dos Direitos Humanos (ObservaDH) e levantamentos da UFMG baseados no CadÚnico, o Brasil soma mais de 365 mil pessoas vivendo em situação de rua. Desse total, Salvador desponta como a 5ª capital com o maior número de pessoas nessa situação, ultrapassando a marca de 10 mil cidadãos. Na Bahia, estima-se que mais de 13 mil famílias estejam vivendo nas ruas.
Essa vulnerabilidade habitacional e social reflete diretamente na saúde. A incidência de doenças infectocontagiosas, como a Tuberculose (TB), é drasticamente maior nesse grupo. De acordo com o Ministério da Saúde, a População em Situação de Rua tem um risco até 56 vezes maior de adoecer por tuberculose em comparação com a população geral. As condições precárias de moradia, higiene e alimentação dificultam não apenas a prevenção, mas também a adesão ao longo e necessário tratamento medicamentoso.
Circuito “Saúde em Movimento”: Informação acessível e autonomia
Para lidar com esses desafios de frente e de forma humana, a equipe da Motirô estruturou o atendimento em quatro estações interativas, entregando cartões informativos coloridos com os principais sintomas e endereços da rede de apoio local (UBS, CnR e Hospitais):
- Estação 1 – Tuberculose (Cartão Verde): Profissionais e apoiadores dialogaram sobre os sintomas da TB, a importância da testagem, do tratamento contínuo e os riscos do abandono, sempre com uma linguagem acessível e objetiva.
- Estação 2 – Relógio das 72h / HIV e Aids (Cartão Vermelho): Com foco na prevenção e ação rápida, a estação orientou sobre a importância de buscar atendimento em até 72 horas após uma exposição de risco (contato sexual desprotegido). O espaço serviu para desmistificar o uso da PrEP, PEP e a realização de autotestes oferecidos gratuitamente pelo SUS.
- Estação 3 – Boca Saudável, Corpo Forte (Cartão Azul): Diante da grave barreira de acesso aos serviços odontológicos, a equipe realizou demonstrações práticas de higiene bucal adaptadas à realidade das ruas. O diálogo abordou os “limites da dor” e orientou sobre onde buscar atendimento gratuito, combatendo o estigma que afasta essa população dos consultórios.
- Estação 4 – Meu Kit, Meu Cuidado: Focada na redução de danos e na promoção da autonomia, a última estação permitiu que cada participante montasse seu próprio kit de higiene. Itens como escova, pasta de dente, preservativos, gel lubrificante, sabonete, lenços umedecidos, absorventes e protetor labial estavam à disposição para escolha.
O impacto no território: muito além do serviço
A recepção da comunidade local foi extremamente positiva. O grupo participante foi heterogêneo, alcançando adultos, idosos e até mesmo crianças que dormem no local. Durante a abordagem, a equipe distribuiu água mineral, reforçando o cuidado primário.
Segundo o relatório de campo da equipe (composta por Evellyn, Meire, Simone, Beatriz, Gislaine, Deysson Augusto, Marina, Henrique, Renildo, Jussara e Kananda), ficou evidente a precariedade do acesso à saúde bucal, com relatos e observações de agravos em estágios já avançados.
Entretanto, o maior resultado da tarde foi a constatação de que a ação se consolidou como um espaço seguro de escuta. Muitas vezes, a necessidade mais urgente dessas pessoas é a atenção e o acolhimento — elementos que estiveram presentes em todas as etapas do circuito.
A Motirô BA reafirma que a promoção da saúde não se resume à oferta fria de serviços, mas exige a escuta ativa das reais demandas. A atuação coletiva entre a ONG, a universidade e o movimento social (MNPR) prova que é possível gerar impacto real quando o trabalho é guiado pela empatia, redução de iniquidades e garantia dos direitos humanos fundamentais.
Ainda há um longo caminho para garantir o acesso digno e integral à saúde para a População em Situação de Rua, mas cada movimento conta. E nós seguimos em movimento.
Acompanhe as próximas ações da Motirô BA e saiba como apoiar o Projeto Akanni navegando em nosso site.







